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Felipe Corona: Jornalistas também são seres humanos

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23 Sep 2020, 12:49 PM (GMT)

Demorou bastante para os principais veículos de comunicação do país se mexerem e retirarem seus profissionais de frente da casa de Jair Bolsonaro.

Por Felipe Corona*

Muito recentemente, escrevi sobre as manifestações a favor do atual presidente que fazem pedidos da volta da ditadura militar e a intervenção militar no Congresso Nacional e no STF.

Lá pelas tantas, falei sobre as agressões a dois profissionais da imprensa no mesmo final de semana: um cinegrafista em Curitiba e um fotógrafo d’O Estado de São Paulo em Brasília.

A coisa só piorou de lá para cá. O ódio dos apoiadores de Jair Bolsonaro contra jornalistas em pleno exercício das funções só aumentou. E já não ficam mais nas palavras, e sim, com duras ações físicas. O caso que mais me chocou foi na semana passada, em Barbacena (MG): um repórter cinematográfico da TV Integração (afiliada Globo) ficou ferido e teve a mão quebrada após agressões gratuitas de um empresário.

Vou resumir a história: o profissional fazia imagens da fachada da Escola Preparatória de Cadetes (Epcar) e o agressor passou de carro xingando. Foi ignorado pelo cinegrafista e pela repórter que o acompanhava. Não satisfeito, ele deu a volta, parou o veículo, pegou o tripé e começou a bater no jornalista e na câmera. A repórter gravou tudo com o celular e a Polícia Militar foi chamada. O homem foi preso em flagrante e ainda teve a audácia de dizer que “bateu mesmo”.

Todos os dias saímos de casa como o trabalhador de qualquer área: buscamos o pão para nossas famílias. Amamos nossa profissão, mas também temos contas e compromissos a serem pagos. A diferença é que nossas funções, atualmente, tem causado um ódio injustificado em apoiadores de políticos, que acham que são os donos da verdade, e tudo que não for de acordo, é “lixo”, “tendencioso”, etc.

Já pensou se toda a vez que você fosse na farmácia, não tendo o remédio que você quer comprar, bater no farmacêutico ou no atendente? Ou agredir um policial militar por que ele não atendeu uma solicitação sua? Haja cadeia para tanta gente que só acha que está certa e os outros errados!

Na madrugada da terça para quarta-feira (27), assisti a entrevista de Pedro Bial com William Bonner. Ali, não vi o editor-chefe e apresentador do Jornal Nacional, mas o cidadão paulistano, jornalista profissional e pai de três filhos.

Desde 2016, Bonner não viaja mais de avião. O motivo? Retaliações e xingamentos. Locais públicos? Nem pensar! Redes sociais? Viraram um tormento, depois de tantos momentos de alegria e diversão.

William ficou com os olhos marejados ao falar dos rumos que estamos tomando. Disse que nunca tinha passado por situações iguais. E pior: envolvendo sua família. Primeiro perdeu os pais em um curto espaço de tempo. O pai em 2016 e a mãe em 2018. Todos os finais de semana ia a São Paulo (de carro) para vê-los.

Agora, mesmo denunciando uma fraude no auxílio emergencial, usando o nome do seu filho Vinícius, foi atacado gratuitamente pelos juízes, carrascos e promotores das redes sociais. E isso já vem dando dor de cabeça para ele há quase quatro anos, quando o filho estava envolvido em um acidente.

Um dos bombeiros espalhou uma foto da habilitação de Vinícius na internet como “denúncia”. O estrago está feito até hoje. Advogados contratados por Bonner vivem desfazendo empresas e esclarecendo estelionatos feitos com os dados pessoais do jovem de 22 anos.

No começo desta semana, diversos veículos suspenderam a cobertura no Palácio da Alvorada por falta de segurança dos seus profissionais. A presença de apoiadores de Jair Bolsonaro no local estava tornando cada vez mais difícil o trabalho dos jornalistas. Recentemente, os xingamentos “mídia lixo”, “comunistas” e “safados” ditos pelos apoiadores que, por diversas vezes, onde o grupo avançou em direção ao espaço reservado à imprensa.

Uma mulher ainda passou pela fila dos jornalistas e gritou: “Ó o lixo, ó o lixo, ó o lixo. Escória! Lixos! Ratos! Ratazanas! Bolsonaro até 2050! Imprensa podre!”.

Em vez do governo Bolsonaro apoiar os jornalistas para divulgarem as suas “verdades”, os membros só pioram a situação. O próprio presidente afirmou após o boicote dos veículos, que os jornalistas estavam se fazendo de “vítimas”. Então, não é verdade o que vem acontecendo, senhor JB?

O interessante é que até antes das eleições de 2018, a imprensa era exaltada justamente por cumprir o seu papel de publicar as corrupções dos governos petistas, como o Mensalão e o Petrolão (este último resultou na operação Lava Jato). Agora, viramos verdadeiras escórias ou párias da sociedade, sendo tratados como leprosos nos tempos bíblicos.

Demorou bastante para os principais veículos de comunicação do país se mexerem e retirarem seus profissionais de frente da casa de Jair Bolsonaro.

Todos os dias temos notícias de hostilidades contra os membros da imprensa.

É melhor fazer o boicote, do que aguardar esperar que algo pior aconteça. E se isso acontecer, imagino que os seguidores da seita Bolsonaro o farão sem culpa nenhuma na consciência. Pois, vale tudo pelo “Mito”, incluindo ter nas mãos o sangue de um profissional que “não fala a verdade sobre o presidente”.

*Felipe Corona é jornalista, formado pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e pós-graduado em Comunicação Organizacional e Integrada pela Faculdade de Rondônia (FARO). Já atuou em diversos veículos e assessorias de comunicação públicas no Amazonas e em Rondônia. Atualmente, é correspondente-colaborador da Folha de São Paulo em Porto Velho.

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