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Felipe Corona: E a cloroquina (de Jesus) hein???

COVID-19 NO BRASIL

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26 Sep 2020, 3:09 AM (GMT)

Acho muito temerário estabelecer um protocolo que “obrigue” os pacientes em qualquer nível de sintomas (especialmente os mais leves/iniciais) a tomarem um medicamento extremamente forte.

Por Felipe Corona*

Mais uma vez fomos surpreendidos com mais uma atitude de mau gosto dos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro recentemente: fizeram uma paródia com a música dos Mamonas Assassinas, no cercadinho na porta do Palácio da Alvorada, com o seguinte verso: – “Cloroquina de Jesus. Não sei se tu me amas, pra quê tu me seduz?”.

Isso é uma das pequenas mostras da obsessão do atual “comandante” do Brasil com um remédio conhecido para tratar malária (principalmente) e outras doenças crônicas: a cloroquina ou a hidroxicloroquina (uma variável do primeiro princípio ativo, porém mais fraca).

No começo da pandemia do coronavírus/Covid-19, começaram a surgir algumas pesquisas nos EUA e alguns experimentos no Brasil. O presidente norte-americano Donald Trump embarcou nesse Balão Mágico e Bolsonaro comprou a pílula dourada. Desde então, virou um mantra para JB: a cada 10 discursos, pelo menos uns sete ele usa a saga da cloroquina como principal forma de salvar os pacientes infectados.

Passaram dois ministros da Saúde que foram na contramão do “capitão”: Luís Henrique Mandetta e Nelson Teich. Ambos eram contra o uso indiscriminado da cloroquina. Falaram diversas vezes que era necessário ter mais prudência para que ela virasse um protocolo de atendimento. Vou até reproduzir um dos últimos tuítes do Teich (antes de pedir demissão, menos de um mês no cargo): “Um alerta importante: a cloroquina é um medicamento com efeitos colaterais. Então, qualquer prescrição deve ser feita com base em avaliação médica. O paciente deve entender os riscos e assinar o ‘Termo de Consentimento’ antes de iniciar o uso da cloroquina”.

Mandetta resistiu quase um ano e meio no cargo. O último mês dele foi de rusgas públicas (outras não) com o “presidente Cloroquina”. Depois, creio que Teich não aguentou a insistência no assunto e pediu o boné. Ambos são médicos com especializações importantes no exterior. Teich, por exemplo, é mestre em Economia da Saúde pela Universidade de York e doutorando pela Harvard Business School.

Próximo de nós, em Manaus, no mês de abril, um estudo brasileiro com a cloroquina foi interrompido precocemente, por motivos de segurança, depois que pacientes sentiram fortes efeitos colaterais ao tomar uma dose mais alta do remédio. A pesquisa envolveu 81 pacientes com coronavírus e foi realizada pela equipe CloroCovid-19, formada por cerca de 26 cientistas de várias instituições, entre elas, a Fiocruz.

Metade dos participantes do estudo recebeu uma dose de 450 miligramas de cloroquina duas vezes ao dia por cinco dias, enquanto o restante recebeu uma dose maior de 600 miligramas por 10 dias. Em três dias, os pesquisadores perceberam arritmias cardíacas em pacientes que tomavam a dose mais alta. No sexto dia de tratamento, 11 pacientes haviam morrido, pondo fim ao estudo. O estudo foi publicado em vários veículos de comunicação do mundo, como o jornal norte-americano New York Times.

A própria FDA (órgão dos EUA que libera o uso de medicamentos e alimentos) já mudou de opinião sobre a cloroquina: emitiu em março uma autorização de “uso emergencial” da hidroxicloroquina e da cloroquina no tratamento da Covid-19 para um número limitado de casos hospitalares (destaque do autor).
Um mês depois, no entanto, diante de estudos apontando um elo entre os medicamentos e a incidência de arritmia cardíaca em pacientes, a agência advertiu contra o uso deles fora de hospitais ou de testes clínicos.

Falando com um aqui e outro ali, vou expor minha opinião sobre o tal medicamento: penso que caso a caso tem que ser avaliado. Ninguém melhor que os médicos e farmacêuticos para definirem o melhor tratamento para cada paciente. Se houver receio, pois é uma doença nova, ainda bem desconhecida de todos, que se peça autorização ao doente ou à família (caso ele esteja inconsciente na UTI).

Acho muito temerário estabelecer um protocolo que “obrigue” os pacientes em qualquer nível de sintomas (especialmente os mais leves/iniciais) a tomarem um medicamento extremamente forte.

Não é fazendo piadas (de mau gosto), iguais a que Jair Bolsonaro fez nesta terça-feira (20), onde disse que “quem for de direita, toma cloroquina. Quem for de esquerda, toma tubaína”.

O ideal é seguir caminhos conhecidos, como disse o grande colega, jornalista Márcio Gomes: “Tem muito remédio sendo TESTADO; tem muita vacina sendo DESENVOLVIDA. Não podemos confiar AINDA nessas pesquisas para relaxar: vamos continuar usando máscara, lavando as mãos, evitando aglomerações”. Simples assim e bem mais fácil!

O caminho é esse: ciência, aliada ao bom senso e cuidados básicos. Não fazendo invencionices, achando que há apenas uma solução. Para o desconhecido, repito, o melhor é sempre a prudência! E que venha a cura para o coronavírus/Covid-19, não importando de onde venha: se dos Estados Unidos, Reino Unido, China e até mesmo o Brasil!

*Felipe Corona é jornalista, formado pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e pós-graduado em Comunicação Organizacional e Integrada pela Faculdade de Rondônia (FARO). Já atuou em diversos veículos e assessorias de comunicação públicas no Amazonas e em Rondônia. Atualmente, é correspondente-colaborador da Folha de São Paulo em Porto Velho.

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